Solyaris é um filme do meu diretor favorito: Andrei Tarkovski.
“Uma das abordagens mais premonitórias do lugar do espectral em um mundo iluminado, sem dia ou noite, é o filme Solaris, de Andrei Tarkóvski, de 1972. É a história de um grupo de cientistas em uma nave espacial que percorre a órbita de um planeta enigmático para verificar, em sua atividade, possíveis inconsistências em relação a teorias científicas existentes. Para os habitantes do ambiente intensamente iluminado e artificial da estação espacial, a insônia é uma condição crônica. Nesse ambiente hostil ao descanso e ao retiro, e no qual se leva uma vida exposta e externalizada, o controle cognitivo entra em colapso. Sob essas condições extremas, os indivíduos são surpreendidos não apenas por alucinações, mas pela presença de fantasmas, chamados no filme de “visitantes”. O empobrecimento sensorial do ambiente da estação espacial e a perda do tempo diurno afrouxam os vínculos com um presente estável, permitindo que o sonho, enquanto portador da memória, seja realocado na vigília. Para Tarkóvski, essa proximidade do espectral e da força viva da rememoração possibilita ao indivíduo permanecer humano em um mundo desumano, e torna a privação de sono e a exposição pública suportáveis. Surgido dos espaços tímidos de experimentalismo cultural dos anos 1970 na União Soviética, Solaris mostra que o reconhecimento e a afirmação desses retornos fantasmagóricos, depois de repetidas negações e repressões, é um caminho em direção à possibilidade de liberdade e felicidade.”
Trecho de CRARY, Jonathan. 24/7: capitalismo tardio e os fins do sono. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
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